Olá,
Faz tempo que não postamos nada aqui, mas hoje estamos passando uma reportagem que a Revista Nova Escola de agosto de 2011 fez com o professor Peter Hunt, primeiro critico sobre literatura infantil.
Entrevista com
Peter Hunt
Pesquisador britânico destaca a complexidade e a riqueza dos textos
feitos para crianças e fala sobre a validade de livros-brinquedo e daqueles que
não têm sequer uma linha escrita
Ele
foi um dos primeiros críticos contemporâneos a levantar a voz contra os
preconceitos sobre os livros elaborados especialmente para as crianças.
Professor emérito da Cardiff University, onde criou e ministra a disciplina de
Literatura Infantil, a primeira do gênero na Grã-Bretanha, Peter Hunt lançou
diversas obras sobre o assunto e recebeu prêmios importantes, como o
International Brothers Grimm Award, concedido pelo International Institute for
Childrens
Literature, no Japão, para estudiosos de todo o mundo que fazem contribuições
significativas para o progresso da pesquisa sobre a literatura infantil.
Em sua produção, o britânico vem contribuindo para elevar o nível da discussão
sobre o tema, na tentativa de que ele passe a ser encarado com mais seriedade e
rigor teórico pelos adultos - em especial, pelos autores e críticos da área,
que muitas vezes subestimam a inteligência das crianças.
Durante recente visita ao Brasil, em virtude do lançamento do livro Crítica, Teoria e Literatura Infantil,
Hunt concedeu esta entrevista à NOVA ESCOLA.
Para muitos, a literatura infantil é sinônimo de
livros com letras grandes e várias figuras. Isso faz sentido?
PETER HUNT De maneira alguma. Essa
concepção existe porque, em diversas situações, os pequenos são subestimados
pelos adultos. Entendo que, quando se está começando a ler, letras grandes e
figuras podem facilitar a tarefa. Mas muita gente pensa que a literatura
infantil tem de ser simples e objetiva só porque é para ser consumida pelos
pequenos. Ainda hoje, as pessoas olham as obras infantis com certa indiferença,
como se elas fossem inferiores. As únicas pessoas que as respeitam são aquelas
que estão realmente próximas das crianças e sabem muito bem que elas não são
criaturas estúpidas e sem opinião.
Por que a concepção de que a literatura infantil é
inferior perdura?
HUNT Muitas vezes, não se acredita
que ela possa oferecer o mesmo tipo de prazer intelectual que a adulta. Além
disso, em geral, presume-se que, por não ter uma vasta experiência cultural, a
criança seja incapaz de fazer interpretações estéticas. Obviamente, um leitor
inexperiente terá uma maneira diferente de apreciar um livro, as ilustrações e
a história. Mas isso não significa que seja incapaz de fazê-lo.
Como definir literatura infantil?
HUNT É aquela que contém
alguma representação do autor a respeito da infância. Quem escreve faz isso
pensando em uma criança real que conhece e em si próprio durante a infância ou
baseia-se em várias ideias que formou sobre como são os pequenos em geral ou como
poderiam ou deveriam ser. Porém, ainda que tente adaptar ou alterar seu estilo
ou o conteúdo de um livro para uma linguagem que as crianças entendam, ele não
pode deixar de ser um adulto enquanto escreve. É aí que está a missão
desafiadora de fazer literatura infantil com qualidade.
Qual é a missão dela?
HUNT Basicamente, expandir o
universo dos pequenos em termos de conhecimento, de experiência e de emoções -
o que já é uma tarefa árdua. Acredito que a literatura seja mais uma ferramenta
para ajudá-los a crescer e se desenvolver com plenitude.
Diversos títulos clássicos, como Romeu e Julieta e Dom
Quixote, têm sido reeditados em versões
simplificadas para a criançada. Na sua opinião, isso é interessante?
HUNT Eu costumava pensar que alterar
o conteúdo e a linguagem de um texto clássico para torná-lo acessível aos
pequenos era uma coisa natural a fazer, afinal os clássicos são bens públicos e
parte importante da nossa cultura compartilhada. Há tempos, os livros têm de
competir com vídeos e outras mídias. Além disso, a garotada está habituada a
leituras mais simples e textos curtos, ou seja, o modo de ler os livros também
está mudando. Portanto, se os leitores precisam ter algum conhecimento dos
clássicos, eles têm de ser alterados, simplificados. Caso contrário, existe o
perigo de eles não serem mais lidos até pelos adultos. Nessa perspectiva,
qualquer versão é melhor do que nada. Porém, de uns tempos para cá, tenho
repensado isso tudo. Acho cada vez mais que, ao simplificar um clássico,
perdemos a essência da obra. O melhor seria então encontrar um caminho para
ensinar as crianças a ler as versões originais, de modo que elas possam
entendê-las no contexto em que foram escritas. O maior erro que podemos cometer
é pensar os clássicos como atemporais, imaginar que eles permanecem atuais com
o passar dos anos. Na realidade, eles são produtos do tempo em que foram
escritos. Assim, todos vão precisar de informações a respeito deles para lê-los
de maneira satisfatória. E nossa missão como educadores é fazer os estudantes
perceberem como esse processo pode ser interessante e desafiador, não apenas um
trabalho árduo.
A crítica literária de obras infantis costuma ser
muito rebuscada e severa, deixando tanto as crianças quanto os adultos
desnorteados na hora de escolher livros para ler. O que uma boa resenha deve
considerar?
HUNT A crítica literária positiva
deve transmitir certo entusiasmo porque é fundamental que ela desperte o
interesse do leitor em conhecer a obra. No entanto, escrever esse tipo de texto
é uma das coisas mais difíceis do mundo porque é preciso discorrer de modo
geral, para diversas pessoas desconhecidas, sobre uma experiência particular. A
opinião sobre uma obra é algo que varia de uma pessoa para outra. Quando lemos
uma crítica, estamos lendo a pessoa que está por trás dela. Daí, precisamos
saber quem é ela, se é um crítico com experiência, se tem filhos e que idade
eles têm, por exemplo. Afinal, a leitura de um mesmo livro pode ser feita de
maneiras diferentes, a depender de quem o lê. Além disso, é interessante
considerar que a crítica literária é geralmente feita por adultos e eles levam
em conta as ideias que têm sobre as crianças, tal como ocorre com a escrita das
obras.
E quanto às críticas escritas pelo público infantil?
HUNT Elas são importantes e válidas
e representam um grande desafio para quem as escreve. Esse tipo de texto
envolve análise e julgamento, ou seja, é uma produção sofisticada e complexa
até para adultos. As crianças são capazes de responder bem a uma pergunta, mas
nem sempre conseguem explicar as respostas que formulam. Dizem gostar de algo,
mas não conseguem expressar o motivo. Nesse ponto, o maior perigo é elas
tentarem copiar as ideias dos adultos. Portanto, quando entregamos um livro a
um pequeno e pedimos que elabore uma crítica, temos de ser cuidadosos e
simplesmente pedir "conte-me um pouco sobre ele". Assim, poderemos
obter uma resposta verdadeira e aí cabe ao adulto interpretá-la. Por isso,
reforço que é preciso saber escutar a garotada. Como muitas coisas sobre a literatura
infantil, esse é outro aspecto que à primeira vista parece fácil, mas não é.
Atualmente há muitos livros-brinquedo e do tipo pop-up.
Alguns têm mais acessórios do que história. O que acha deles?
HUNT Acredito que recursos
como luzes, sons, ilustrações que saltam das páginas e gravuras com texturas
são válidos na medida em que servem para aumentar o interesse pelo suporte
livro. Minha única ressalva é que eles pressupõem um tipo de experiência de
leitura muito diferente da convencional. A leitura de um livro-brinquedo
proporciona um contato com três dimensões (altura, largura e profundidade) - e
não apenas a decodificação de palavras. É uma experiência complexa. De qualquer
forma, ele pode levar a criança a se interessar pelo modelo convencional, somente
escrito e ilustrado, que oferece uma vivência diferente ao leitor.
Os livros que não têm texto são literatura também?
HUNT É claro! No entanto, é preciso
seguir regras e convenções específicas para lê-los. Eles não são, de forma
alguma, simples de ler. Ao contrário. Quando há só imagens, são exigidas
habilidades mais sofisticadas do leitor para a imaginação e a interpretação da
história, quando ela existe, é claro.
O que um educador que trabalha com turmas de creche e
pré-escola precisa considerar para escolher boas obras para os pequenos?
HUNT As características e as
preferências do grupo. Não existem simplesmente bons livros para a criançada.
Existem títulos interessantes para cada turma. Recomendo que os docentes tenham
coragem e confiança para fazer a seleção de acordo com o conhecimento que
possuem sobre as crianças com quem convivem diariamente. Quais assuntos chamam
a atenção delas? Quais são seus heróis? Elas gostam de animais ou preferem
criaturas fantásticas?
Em seu livro Crítica, Teoria e Literatura Infantil, há a seguinte afirmação "as orações terminam
com pontos finais. As histórias, não". Qual o sentido dela?
HUNT Que é uma aspiração impossível
saber com certeza como uma criança lê uma determinada história e como fará a
interpretação dela. Nesse sentido, também afirmo que nenhuma história termina
na última página. Da mesma forma, julgo no mínimo arbitrário supor que os
pequenos desejam sempre histórias com final feliz para todos os personagens. A
fantasia deles é muito maior que a dos adultos, além de ter alguns toques de
insubordinação.